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Carolina Braga

Não se trata de fazer futurologia. Basta um olhar mais sensível para a maneira como nos comunicamos hoje para perceber que há uma “centrífuga” em ação. O fenômeno tampouco é recente. A forma como geramos e consumimos conteúdo vem mudando. Sim, assim no gerúndio mesmo pois é – e será – um processo contínuo de transformação. Atordoado com as novas rotinas do trabalho contemporâneo, quem se dedica à esfera da produção dá sinais de pouca intimidade com ferramentas que surgem a cada segundo.

Por outro lado, teóricos e estudiosos da área também procuram meios de lidar com a profusão de termos e conceitos que emergem a cada clique ou compartilhamento. Como afirma o professor e pesquisador argentino radicado na Espanha, Carlos Alberto Scolari, há uma espécie de caos semântico no ar. Há dez anos o americano Henry Jenkins escreveu artigo no qual afirmava que a recém chegada “era da converência de mídia era caminho inevitável para o fluxo de conteúdo em múltiplos canais”

Hoje, convergência já não é “a” palavra da moda. Junto à ela aparecem expressões como cross-media, múltiplas plataformas, meios híbridos e, em especial, narrativa transmídia, a qual Scolari acaba de dedicar um livro. Não é uma simples adaptação de linguagem, tipo um livro que tem sua trama contada no cinema. Uma narrativa transmídia vai muito além disso. “A produção compreende mais de um meio e todos se apoiam entre si a partir das suas potencialidades específicas”, define o autor em Narrativas transmedia: cuando todos los medios cuentan.

É o caso de Harry Potter, que sai das páginas, vai para a telona, vira objeto de um vídeogame, um aplicativo para telefone celular ou tablet, e assim vai expandindo as experiências em torno dos personagens de J. K Rolling. Práticas como estas tem se tornado comuns nas estratégias de marketing de produtos da indústria americana do entretenimento. Porém, outras esferas da comunicação tendem a se contaminar pelo transmídia. Na opinião de Carlos Scolari, eis o caminho inevitável para as notícias, ainda que isso implique em mudanças geracionais na esfera de produção das mesmas.

Pensar o transmídia dentro do jornalismo nos obriga reconhecer de que não se trata de uma “prática” exatamente nova. Antes da internet era assim: a rádio dava a notícia, pela televisão aquele relato se expandia em imagens, no dia seguinte leríamos o ocorrido no jornal, acrescido de análises e opiniões e no fim de semana seria a vez das revistas interpretarem o mesmo acontecimento. Ainda vigente, esse esquema cumpre duas características das narrativas transmídia. “O relato se expande de um meio a outro e os usuários participam, antes da internet de uma maneira muito limitada”, explica. Tipo cada um na sua, mas com alguma coisa em comum. Harry-Potter

Hoje a diferença é a variedade de ferramentas que os usuários têm para expressar e publicar suas opinões, seja sobre o fato ou a abordagem do mesmo. Quase sem querer, o relato se espalha de maneira incontrolável pelas redes. Ao mesmo tempo em que a TV mostra o acontecimento, a rádio comenta, o Twitter, o Facebook ou qualquer outra rede social estica a notícia, a opinião, a entrevista, seja de maneira profissional ou amadora. Há quem dê ordem ao caos? Seria essa outra forma de mediação para os comunicadores?

Em Hollywood já existe a figura do produtor transmídia, profissional responsável por planejar e gerir a expansão do relato por diferentes mídias. “Podemos pensar em uma figura similar no âmbito informativo. Ser um jornalista transmídia, não quer dizer que tem que fazer tudo. Do mesmo modo que na ficção não é a mesma pessoa que faz o videogame, o conteúdo para celular, a HQ e o filme. Tem especificidades”, explica. A chave da mudança, segundo Carlos Scolari, está na transformação de papéis sociais bastante consolidados, tanto dos meios como de quem os faz.

“O primeiro problema é que o jornalista não assume que está contando uma história. Segundo, pensa uma narrativa monomediática: tipo escrevo para o jornal e a rádio é outra coisa. Há a necessidade de uma mudança de mentalidade”, diagnostica Scolari. Todas as vezes que tem oportunidade de se encontrar com diretores de jornais, o professor costuma perguntar se eles sabem qual é exatamente o negócio da empresa. “Imprimir papel ou informar pessoas? Se pensam que é imprimir papel, vão muito mal. Se o negócio é informar as pessoas, é preciso entender que a notícia é um relato. Como será esse relato? É transmídia?”, questiona.

Claro que mudanças desta envergadura não são assimiladas do dia para a noite. Afinal, as alterações dizem respeito a modelos de negócios e a quebra de paradigmas. Do lado das empresas de comunicação tradicionais, a crise bate às portas. O consumo de jornal em papel cai vertiginosamente no mundo todo. As audiências da tv e do rádio já não são as mesmas e muito menos com hábitos parecidos com aqueles consolidados na era de ouro das transmissões para massa. Daquele modelo do um para muitos, ou seja, muita gente lendo jornal, ouvindo a rádio, vendo a televisão passamos para a temporada em que a dieta midiática se diversifica a passos largos. “Hoje falar em fragmentação é pouco. Pensemos em atomização”, diz Scolari. A narrativa trasmídia permite recompor algumas das audiências do passado já que ao invés de reunir as pessoas em torno de um meio, faz isso ao redor de um relato. É nesse sentido que se torna importante a reflexão de como poderemos fazer um jornalismo que seja, além de profundo e relevante, expansível para múltiplas plataformas.

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